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Tempo com Coutinho

3 de fevereiro de 2015

Claudius Ceccon relembra trajetória junto ao cineasta

A história da criação do CECIP está ligada ao meu encontro com Coutinho, aí por volta de 1984. Zelito Viana, produtor de cinema, me convidou para ver algumas tomadas de um documentário que Coutinho estava fazendo. Vi cenas do Cabra numa moviola, sem som e, até hoje não sei explicar bem o que aconteceu, mas o fato é que aquelas imagens mudas, vistas num pequeno visor, num quartinho exíguo, num dia de calor carioca, me emocionaram às lágrimas. Coutinho, que conheci naquele momento, foi, como de hábito, discretíssimo. Mas Zelito foi direto ao ponto: “Você viveu mais de dez anos na Europa, deve ter contatos, poderia ajudar a arranjar os recursos necessários para terminar o filme?” Por acaso, dali a algumas semanas, chegaria um amigo, Charles Harper, Diretor da Secretaria de Direitos Humanos na América Latina, do Conselho Mundial de Igrejas. Para encurtar a história, Harper também se emocionou e conseguiu contribuir com o necessário para que o Cabra fosse sonorizado.

No final de 1985 o documentário Cabra Marcado para Morrer ganhou todos os prêmios no Festival Internacional do Rio de Janeiro: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor tudo.

Paralelamente a isso, um antigo projeto meu foi aprovado: o uso do vídeo em comunicação popular. Isso tinha tudo a ver com Coutinho, e também com o jornalista Washington Novaes e com Breno Kuperman, professor de cinema e TV na UFF. Inicialmente, fizemos uma tentativa de sociedade, criando a produtora Tocandira, mas logo Washington se mudou para Goiás, Coutinho começou a filmar O Fio da Memória, Breno foi absorvido pela vida acadêmica e o que seria uma empresa acabou se tornando uma ONG sem fins lucrativos chamada CECIP, Centro de Criação de Imagem Popular. Um dos projetos do CECIP foi a TV Maxambomba, uma “televisão” que se apresentava nas praças da Baixada Fluminense ao cair da noite, projetando num telão instalado em cima de uma kombi os vídeos que eram feitos com a participação da população. Durante mais de dez anos, as pessoas deixavam de ver a novela na televisão de casa para assistirem coletivamente, na praça, cenas de sua realidade no telão da TV Maxambomba, “A TV do Povo de Nova Iguaçu!”, como anunciava o alto falante quando a kombi chegava. Ao final de cada sessão, havia uma câmera aberta, na qual as pessoas podiam expressar suas opiniões, tendo suas imagens projetadas no telão. Durante todo esse tempo, Coutinho ajudou, aconselhou, criticou, com sua capacidade de análise e seu olhar extremamente crítico, a fazer dessa experiência mais do que apenas um passatempo superficial.

Entre o Cabra Marcado para Morrer e o final dos anos 90, Coutinho praticamente ficou fora do mercado do cinema. Seu único trabalho foi O Fio da Memória, um documentário de 4 horas de duração sobre negritude que levou dois anos para ser terminado. Durante aqueles anos, foi no CECIP que Coutinho se viu desafiado a dirigir documentários sobre os mais variados assuntos e pôde fazer experiências que talvez não tivessem sido possíveis em outro contexto. Em 1989 dirigiu O Jogo da Dívida, um documentário sobre a dívida externa da América Latina, premiadíssimo. Sua estrutura e mensagem permanecem atuais. Mais tarde, dirigiu documentários sobre questões relativas à legislação ambiental, parte de projetos do CECIP. A partir de uma dessas experiências, Coutinho mergulhou num assunto que o interessava há muito e produziu, com a equipe e o equipamento do CECIP, numa base de voluntariado, o que talvez seja uma de suas obras-primas: Boca de Lixo. No final dos anos 90, numa experiência inédita, o CECIP co-produziu Santo Forte e Babilônia 2000, dois documentários de Coutinho que foram para as telas do circuito comercial.

O sistema de distribuição brasileiro não favorece o documentário. Vencendo essa barreira, esses dois filmes chamaram a atenção. Ali se iniciou uma nova fase, em que Coutinho é “redescoberto”. A parceria com João Moreira Salles, da VideoFilmes, dá a Coutinho condições indispensáveis para alçar voos mais ousados, começando com Edifício Master e continuando com uma série de documentários inovadores. Coutinho vira unanimidade nacional. É convidado a um sem número de festivais, livros são publicados sobre sua obra, e, fato que ele considerou bizarro, recebe um convite para ser membro da Academia do Oscar. Esse convite só foi respondido porque resgatamos da cesta de lixo a carta que ele havia jogado fora e o convencemos a aceitar. O que ele fez, muito a contragosto, resmungando contra a mediocridade dos filmes que lhe pediam para julgar.

Enquanto tudo isso acontecia, o lugar em que Coutinho trabalhava, lia, pesquisava, preparava e escrevia os seus “não roteiros”, recebia quem queria vê-lo ou entrevistá-lo, era a sua sala no CECIP, na sede do Largo de São Francisco de Paula. Ali, na sua mesa, abarrotada de papéis caoticamente empilhados, estava sua Olivetti 22, e seu enorme cinzeiro repleto dos cigarros que fumava compulsivamente, acendendo um no outro. Era ali, também, onde também fazia as sessões de nebulização recomendadas pelo médico, para amenizar o mal que o tabaco causava a seus pulmões. Rebelde: mais de uma vez o surpreendi segurando, com uma das mãos, a máscara contra o rosto, enquanto a outra portava entre os dedos o cigarro aceso.

Em janeiro de 2014, o CECIP havia decidido mudar de endereço. No projeto da nova sede uma sala, estrategicamente localizada, ficou indicada na planta como “Sala do Coutinho”.

Coutinho nos deixou, mas a “Sala do Coutinho” continua sendo assim chamada, com seu retrato na porta, cigarro entre os dedos. Em sua homenagem, ali é o único lugar em que é permitido fumar.

Coutinho foi eleito Presidente do CECIP no biênio 2012/2013. Aos que pensaram que ele se comportaria como se aquilo não passasse de um cargo honorífico, Coutinho surpreendeu:  revelou-se atento, rigoroso, presente em todos os momentos importantes de resolução de algum problema ou de planejamento futuro.

Coutinho nos deixou sobretudo seu exemplo, de integridade absoluta, de independência de pensamento, de capacidade crítica e de um voraz interesse por tudo, especialmente pelo ser humano, pelas pessoas comuns e suas extraordinárias histórias. Coutinho tinha uma capacidade de escuta impressionante. De uma empatia natural, conseguia, sem esforço, que as pessoas se sentissem à vontade e lhe abrissem seus corações. Ele agradeceu, devolvendo-lhes com juros, uma série de filmes de imenso interesse humano.

O filme que Coutinho deixou inacabado está sendo finalizado por João Moreira Salles e Jordana Berg, seus amigos, companheiros de trabalho e, acima de tudo, declarados admiradores.

 

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