CECIP

O projeto Narrativas de Paz é realizado pelo Cecip, uma organização da sociedade civil com muitos anos de história. Leia aqui um pouco da trajetória dessa organização, que é a casa do Narrativas!

Conheça todos os projetos do CECIP acessando www.cecip.org.br

Um pouco da nossa história...

O CECIP vem atuando em projetos onde a participação infantil, a escuta de crianças, a qualificação de quadros do poder público para incidência política, a comunicação e a formação em princípios básicos na educação e na defesa do sistema de garantia dos direitos das crianças, são acompanhados pelo permanente desafio de incorporar novas tecnologias.

O Cecip foi fundado em 1986 por um grupo de profissionais preocupados com o processo de redemocratização do Brasil, após 21 anos de ditadura, no momento em que era recém eleita a Assembleia Constituinte. Desse grupo faziam parte pessoas reconhecidas em suas áreas específicas, como Paulo Freire, Ennio Candotti, Eduardo Coutinho, Ana Maria Machado, Claudius Ceccon.  Decidiu-se criar um espaço multidisciplinar, com o objetivo de contribuir, na medida de suas possibilidades e da soma desses saberes, para o processo de fortalecimento da cidadania, produzindo informações e metodologias que pudessem influenciar políticas públicas que promovessem direitos fundamentais para todos.

Seu primeiro projeto institucional, a TV Maxambomba, foi uma experiência inovadora no uso de tecnologias em educação e em comunicação popular. Era uma “televisão” que durante 12 anos se apresentava nas praças da Baixada Fluminense, projetando num telão armado sobre uma Kombi, informações de utilidade pública, ficções e documentários que valorizavam as realizações culturais daquela população. Esse contato direto com o público que participava de várias maneiras dessa atividade, nos ensinou lições que hoje estão inseridas em projetos com novas tecnologias digitais, como o Oi Kabum! pelo qual já passaram mais de dois mil jovens moradores de favelas e de periferias, ou em experiências de gestão, como a Nave do Conhecimento, no Complexo do Alemão, onde abrimos novos caminhos para crianças, jovens e adultos da comunidade local, com a apropriação de tecnologias digitais.

É indiscutível que imagem possui um poder imenso, mas a experiência nos ensinou que é necessária uma complementação teórica que só a palavra escrita pode dar. É por essa razão que a extensa lista de publicações do Cecip inclui livros, como Conflitos na Escola ou Mestres da Mudança, manuais, como Botando a Mão na Mídia, uma análise crítica dos meios de comunicação, Direitos São Pra Valer, sobre racismo na sociedade brasileira, e séries de publicações como O Município em Defesa da Infância e da Adolescência,  sobre a criação dos Conselhos de Direitos e Tutelares, Nem Com Uma Flor, sobre violência doméstica, além de outras publicações sobre Primeira Infância, da qual falaremos a seguir

A primeira infância no CECIP

Começamos a trabalhar no campo da Primeira Infância no início dos anos 90, produzindo o conjunto de materiais Creche Saudável, para atualização e capacitação de educadores de creches. Ao tomar conhecimento, o Unicef nos propôs a realização de um seminário de formação para ONGs e OGs parceiras e, mais tarde apoiou a distribuição do conjunto em todas as regiões brasileiras. A avaliação desse projeto foi muito positiva e sugeria um novo conjunto, desta vez sobre o dia a dia da creche. Ao serem editadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, respondemos a essa demanda e, com o apoio do Unicef, criamos o conjunto de materiais Trocando em Miúdos, que traduz para o dia a dia das creches, em linguagem acessível, os conteúdos que as Diretrizes propunham em termos teóricos. Esse conjunto também foi distribuído pelas representações do Unicef em todas as regiões do Brasil.

Usamos esses materiais em nossos projetos de capacitação de educadores de creches. De um deles, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro, surgiu o Centro Cultural da Criança, uma experiência pioneira, onde todas as regras de funcionamento foram criadas com a participação ativa de crianças de cinco a dez anos. É um exemplo concreto de escuta, de respeito à diferença, de uso da argumentação, e não da força, na superação de conflitos. Como em outros projetos, duas publicações socializam sua concepção e avaliam essa escola de cidadania, com potencial de tornar-se política pública.

Essa experiência inspirou o projeto Criança Pequena em Foco (2012/2016), cuja característica marcante era a escuta, ao mesmo tempo respeitosa e divertida, das opiniões e desejos das crianças. O seu olhar sobre o ambiente em que vivem e as propostas que fazem para melhorá-lo revelam sua admirável percepção e mostram sua capacidade de liderança e de mobilização em suas comunidades.

Essas experiências vêm enriquecendo outras ações de formação, realizadas em favelas do Rio de Janeiro, com educadores em creches, ampliando seu horizonte e seu repertório, como o projeto De mãos dadas por uma creche de qualidade, ou Ganhando Autonomia, na Rocinha e Cantagalo. Atualmente, estamos trabalhando no Balaio de Livros, em sua segunda edição, apoiado por Criança Esperança (Unesco), na favela da Rocinha.

Participamos da fundação da RNPI, Rede Nacional Primeira Infância e fomos eleitos para coordená-la, entre 2015 e 2017, uma experiência de caráter nacional, que nos ensinou muito. Entre outras coisas, aprendemos na prática que, para serem ouvidas, as organizações da sociedade civil e outras instituições que fazem parte da Rede, devem juntar seus saberes e agir com firmeza, para que suas vozes e os direitos que defendem sejam ouvidos pela sociedade e pelos governos que passam. 

O CECIP está realizando, como organização parceira da RNPI, o projeto Primeira Infância é Prioridade (2019/2020), com objetivo de assessorar quadros técnicos de prefeituras, fornecendo-lhes elementos para a elaboração dos Planos Municipais pela Primeira Infância. Outro projeto de incidência em políticas públicas na área da primeira infância é o MOB-PI – Mobilidade na Primeira Infância (2019/2020), que busca envolver os municípios na discussão, na sensibilização e nas ações necessárias para transformar suas cidades num lugar seguro e agradável para as crianças, o que, como se sabe, é certamente onde todos viverão melhor. As autoridades do governo municipal, ao escutar o que as crianças dizem, ao ouvir sua opinião, ao considerar seu diagnóstico sobre o estado atual da sua cidade e o rol das carências que identificam, ao lhes dar a oportunidade de acompanhar as etapas da mudança, essas autoridades se envolvem no processo de educá-las para uma cidadania participativa.

A metodologia desenvolvida pelo CECIP nesses projetos tem um DNA Freireano: a escuta, o diálogo, o respeito pelo interlocutor, a descoberta em comum, o entendimento de que essa relação é uma relação dialógica, onde ambos aprendem. Essa atitude de cuidado e de respeito cria laços de afeto e vínculos de amizade que vão além de uma relação formal, e que, apesar da distância, desenvolve uma relação que aproxima as pessoas.Em 2019, desenvolvemos a primeira etapa do projeto Narrativas de Paz, e agora estamos com muita felicidade desenvolvendo a segunda etapa, que vai de 2020 a 2022, no bairro de Santa Teresa, cidade do Rio de Janeiro, exercitando as metodologias da cultura de paz para pensar a primeira infância no contexto urbano.

Nossa trajetória com a Cultura de Paz

Reconhecendo a necessidade de refletir sobre as questões de conflito e violência nas escolas e apresentar alternativas viáveis para resolvê-las, o CECIP realizou projetos pioneiros na área da Justiça Restaurativa, em parceria com diversos atores dos sistemas judiciário e educacional. Os valores que regem a Justiça Restaurativa são o empoderamento, a participação, a autonomia, o respeito, a busca de sentido e de pertencimento na responsabilização pelos danos causados, mas também na satisfação das necessidades que emergem da situação de conflito.

O projeto Justiça e Educação: parceria para cidadania foi desenvolvido de 2005 a 2007 em São Caetano do Sul (SP) e em 2006 foi iniciada a parceria entre as áreas de Justiça e de Educação em Heliópolis e Guarulhos (SP), em um processo de formação e implementação de práticas restaurativas, com o apoio de lideranças educacionais, a partir da articulação entre o Poder Judiciário e a Secretaria da Educação. O objetivo era contribuir para transformar escolas e comunidades que vivenciam situações de violência em espaços de diálogo e resolução pacífica de conflitos.

Como resultados dessa primeira etapa dos projetos-piloto, foram realizados círculos restaurativos nas escolas, fóruns e comunidades; houve o fortalecimento das Redes de Apoio em Guarulhos e São Caetano do Sul e a criação da Rede de Apoio em Heliópolis; e promoveu-se a articulação entre as Varas de Infância e Juventude e as Diretorias de Ensino das três regiões.

O trabalho apoiou as escolas, as comunidades e os Fóruns para que discutissem formas de ampliação de espaços democráticos de diálogo, de aprendizagem e de resolução de conflitos, atuando em parceria com estudantes protagonistas, famílias, instituições e organizações governamentais e não-governamentais da sua Rede de Apoio.

Em 2009, iniciou-se um novo projeto, desta vez junto à Secretaria de Educação de São José dos Campos e à Vara da Infância e Juventude local. O trabalho envolveu cerca de 140 pessoas – entre educadores e gestores de dez escolas da região, representantes dos Conselhos Tutelares e da Secretaria de Saúde, entre outros e foi realizado até 2012.

De 2011 a 2015, realizamos o projeto Jovens e seu Potencial Criativo na Resolução de Conflitos no Rio de Janeiro, com o patrocínio da Petrobras e o apoio e parceria da SME-RJ. Com o objetivo de contribuir para a ampliação da Cultura de Paz, buscando respostas efetivas a situações de conflito e violência no âmbito das escolas da rede pública municipal e das comunidades, o projeto envolveu 50 escolas e 2500 participantes, entre jovens e educadores.

As experiências na área da Justiça Restaurativa e da Cultura de Paz, todas sistematizadas, consolidaram uma linha transversal aos projetos do Cecip, confirmando a aposta institucional no diálogo, na participação, na escuta ativa e na autonomia como ferramentas para a construção coletiva de contextos mais justos e menos violentos. O projeto Narrativas de Paz nasce do encontro dessas experiências e valores com a área da primeira infância: uma oportunidade para exercitarmos a cultura de paz com quem é responsável pelo cuidado das crianças. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, que vive a violência como uma rotina, o projeto atua na valorização da primeira infância para que a violência não se perpetue como uma narrativa dominante.