Em 31 de março de 1964, o Brasil entrou em um dos períodos mais sombrios de sua história, marcado por censura, perseguições e extrema violência contra aqueles que se opunham ao regime militar. Nesta data, que marca 61 anos do golpe empresarial-militar, o CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular – reafirma seu compromisso com a memória, a verdade e a justiça e busca contribuir, com seu trabalho e reflexão, para o aprimoramento do regime democrático neste país.
Entre os inúmeros brasileiros que vivenciaram a repressão, está Claudius Ceccon, Diretor-Executivo do CECIP. Seu relato foi publicado na revista Serrote (https://revistaserrote.com.br), do Instituto Moreira Salles, com o título “A ditadura reencontrada” onde três desenhos, que julgava perdidos, documentam sua passagem pela prisão na década de 60.
A repressão à liberdade de pensamento
O golpe de 1964 se construiu sobre uma narrativa manipulada para criminalizar qualquer movimento progressista. Apoiados por setores conservadores da sociedade e pela grande mídia, os militares justificaram a deposição do governo democraticamente eleito de João Goulart pela ameaça de um suposto golpe comunista – uma fakenews, uma mentira, que despertou medos alimentados pela insegurança e desconhecimento sobre suas origens. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, citada no artigo, foi um dos instrumentos dessa campanha de desinformação, usada para legitimar o ataque às reformas de base e à organização popular.
O relato de Ceccon expõe como a ditadura sequestrou o direito de expressão e participação política. “O medo, a censura e a violência psicológica eram armas tão poderosas quanto a tortura física”, escreveu ele.
A urgência da memória
Para o CECIP, recordar essas histórias é essencial para evitar que tais episódios se repitam. A exposição *“Rua da Relação 40: Testemunho Material da Violência de Estado”, uma iniciativa do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação e da campanha Ocupa DOPS, aberta nesta segunda-feira (31/3), no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, tem também este objetivo.
A mostra resgata histórias de repressão no prédio que abrigou o DOPS da Guanabara, hoje sede do Palácio da Polícia. Antes de se tornar um dos principais centros de tortura da ditadura, o local já havia sido palco de perseguições sob diferentes regimes autoritários. Entre os materiais expostos, há os desenhos de Claudius, mostrando as condições a que eram submetidos os presos no DOPS durante os “anos de chumbo”. Sua história acontece no princípio da ditadura, quando foi possível saber onde ele estava e fazer uma campanha para sua liberação. Nos anos seguintes, a crescente oposição ao regime que dava sinais de querer permanecer no poder resultou no Ato Institucional V, em 13 de dezembro de 1988. Foi a partir daquele momento que a ditadura tirou a máscara e vivemos o período mais repressivo e violento, onde todos os direitos foram abolidos. Foi então que aconteceram episódios como a morte de Wladimir Herzog, de Manuel Fiel Filho, de inumeráveis mulheres e homens perseguidos políticos que foram presos, torturados, mortos e desaparecidos. O filme Ainda Estou Aqui, narra uma dessas tragédias, o desaparecimento de Rubens Paiva e a saga de Eunice, para saber a verdade. Sua história é apenas uma entre tantas de outras vítimas da ditadura. Por essa razão, a democracia não pode ser considerada como garantida. Ela exige vigilância permanente. uma defesa constante.
Nessa luta constante, vigilante, a memória tem um papel primordial. O esquecimento abre espaço a retrocessos. Tortura, nunca mais! Ditadura, nunca mais!