Milhares de mulheres ocuparam, ontem, as ruas das principais capitais brasileiras para marcar o Dia Internacional da Mulher. No Rio de Janeiro, a mobilização concentrou-se em Copacabana. Representantes do CECIP participaram do ato, cujo destaque foi o clamor pelo fim da violência de gênero. O movimento ocorre em um momento crítico: o Brasil acaba de fechar o ano de 2025 com o recorde sombrio de 1.518 vítimas de feminicídio, o maior índice em uma década, desde a aprovação da lei tipificando o crime.
Outras reivindicações foram destacadas em cartazes e discursos, como a economia do cuidado. Dados do Ipea reforçam a urgência desse debate, revelando que mulheres dedicam, em média, 10 horas semanais a mais do que os homens a trabalhos domésticos e de cuidados não remunerados. Diante desse cenário, o público que foi às ruas exigiu a ampliação de políticas públicas que combatam o machismo e o patriarcado – combustíveis para a escalada da violência e da exploração laboral.
Pela vida das mulheres
Para Luciana Perpétuo de Oliveira, educadora do CECIP e especialista em Políticas Públicas para a Igualdade na América Latina, a ocupação das ruas é um movimento vital de resistência. Ela associa o aumento da violência – incluindo casos de estupro e discursos de ódio – ao impulsionamento dos movimentos extremistas e grupos do tipo “incels” e “red pill” no Brasil e no mundo. “A cultura patriarcal, colonial e capitalista está nos matando. Não queremos flores e gestos simbólicos pontuais, queremos mulheres vivas, e reconhecidas”, afirma Luciana.
Ela enfatiza que a mudança real exige o envolvimento direto dos homens no debate sobre opressão de gênero. “É importante que os homens se aprofundem sobre os mecanismos de opressão em que operam contra as mulheres, para que possamos promover mudanças substanciais. Queremos que nossas filhas, sobrinhas e netas não precisem sentir o medo que sentimos hoje. E queremos que nossos filhos não reproduzam esses mecanismos”, acrescenta a educadora, destacando a necessidade de reflexão e diálogo para transformar práticas que possam produzir outras relações com base no respeito a todas as nossas diferenças.
Para Pérola Magalhães, jovem mobilizadora da Rede Não Bata, Eduque, o Dia Internacional da Mulher vai muito além de uma data comemorativa.
“O 8 de março é uma data política, assim como nossos corpos. Sobretudo quando se trata de mulheres negras, pobres e reais. Enquanto existir um útero sagrado sobre a Terra, toda memória feminina continuará viva, pulsante e presente. Já combinamos de não morrer e, sem pedir licença, exigimos o direito de bem viver”, diz a jovem, de 17 anos.
Questionar desigualdades e romper silêncios
Ao longo de sua trajetória, o CECIP tem desenvolvido iniciativas que contribuem para ampliar o debate público sobre direitos humanos, justiça social e equidade. Entre elas está o projeto “QSL: Quebrando Silêncios e Lendas”, criado em 1999 para apoiar a formação de profissionais da segurança pública no atendimento a mulheres vítimas de violência. O curta-metragem “Nem com uma flor”, dirigido por Sergio Goldenberg, e a publicação QSL abordam o ciclo vicioso da violência doméstica e sugerem formas eficazes de atendimento às vítimas. Discutem ainda a história das relações de gênero e a legislação vigente à época, reforçando a importância da criação e fortalecimento de redes de apoio para facilitar o encaminhamento das mulheres em situação de violência.
Lei Maria da Penha: um marco na proteção das mulheres
Sete anos após o projeto QSL, o Brasil avançou significativamente na legislação, com a sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Considerada um divisor de águas no combate à violência doméstica, a lei criou mecanismos mais rigorosos de proteção às mulheres, como medidas protetivas de urgência, maior rigor na punição dos agressores e a criação de juizados especializados.
A Lei Maria da Penha foi um passo fundamental para que o Brasil reconhecesse a violência doméstica como uma violação dos direitos humanos e passasse a tratá-la de forma estrutural. No entanto, o atual aumento do número de assédios, agressões, abusos e feminicídios mostra que há um longo caminho a percorrer para garantir sua efetividade e assegurar que todas as mulheres tenham seus direitos protegidos.
Mais de duas décadas depois, a urgência dessa pauta permanece evidente. O Dia Internacional das Mulheres nos lembra que combater a violência de gênero é uma tarefa coletiva, que envolve políticas públicas, justiça, educação e mobilização social. O CECIP reafirma seu compromisso com uma educação transformadora — capaz de questionar desigualdades, romper silêncios e construir um mundo no qual mulheres e meninas possam viver com liberdade, respeito e segurança. A luta por uma sociedade mais justa e segura para todas não pode cessar.
















































