O desenvolvimento das metrópoles brasileiras seguiu uma lógica que priorizou o fluxo de carros e a produtividade industrial em detrimento da convivência humana. Como resultado, as crianças, muitas vezes invisibilizadas no planejamento urbano, tiveram limitado seu direito de brincar nas ruas e espaços públicos. Hoje discute-se os efeitos de uma infância “emparedada”, sujeita ao uso excessivo de telas.
Para aprofundar essa conversa e mostrar como podemos reverter esse cenário, transformando nossas cidades em espaços seguros e acolhedores para as crianças e suas famílias, conversamos com a arquiteta e urbanista Marieta Colucci, consultora de Urbanismo da Urban95 Brasil. A Rede Urban95 é uma iniciativa global promovida pela Fundação Van Leer, coordenada no Brasil pelo CECIP.
Quando uma criança não pode brincar na rua, isso é uma escolha das famílias ou fracasso do planejamento urbano?
Historicamente, no Brasil, desenhamos cidades numa lógica rodoviarista, adultocentrada, com o objetivo de facilitar deslocamentos e reduzir as distâncias e os tempos que conectam a casa ao trabalho. Esse modelo de cidade tem o carro como seu principal usuário, para que majoritariamente homens, produtivos, saudáveis possam acessar os seus trabalhos da forma mais rápida possível, numa lógica capitalista e industrial. É uma escolha que deixa de lado os outros cidadãos, sejam eles mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência, que não atendem às necessidades de eficiência e produtividade que a cidade elege como prioridade. As crianças são um dos grupos mais afetados, pois muitas vezes elas nem são consideradas cidadãs, sujeitos de direitos. Os espaços urbanos dedicados às crianças foram progressivamente diminuindo e elas, com o tempo, reduziram sua presença nas ruas. Os carros tomaram cada vez mais espaço e a criança perdeu a sua autonomia, a sua liberdade, ficando cada vez mais restrita aos espaços da casa, da escola e, quando existentes, outros espaços de interação infantil como centros culturais e bibliotecas. Ao mesmo tempo, e não por acaso, a cidade fica cada vez menos lúdica, menos atrativa, o que resulta em pais mais inseguros, e mais crianças dentro de casa, num ciclo vicioso.
Hoje as crianças ficam tempo demais diante das telas, brincam menos nas ruas, e isso não é uma escolha das famílias, mas uma consequência do desenho urbano. O uso de telas também é uma resposta a esse fenômeno, uma vez que o espaço público está mais inseguro, mais inóspito. Deixar a criança dentro de casa em contato com as telas acaba sendo uma solução mais viável, principalmente em famílias em situação de vulnerabilidade, e mães que criam os filhos sozinhas e não têm com quem deixar a criança. A tela acaba é a solução possível para que as crianças consigam se entreter sozinhas enquanto a mãe faz outras tarefas de casa.
A forma como desenhamos as cidades tem grande influência nisso. Se os espaços públicos são convidativos, agradáveis, se permitem que as famílias usufruam deles com segurança, a chance de famílias passarem mais tempo nesses espaços é maior, sobretudo se forem espaços de convivência com outras famílias próximas, podendo significar apoio mútuo: mães e pais cuidam de todas as crianças. Assim, os adultos cuidadores primários podem ficar mais tranquilos em relação às suas crianças ao mesmo tempo em que fazem conexões com outras famílias. Por isso, pensar nos espaços para as crianças é pensar também nos cuidadores, porque na primeira infância as crianças não têm autonomia para circular sozinhas. O espaço precisa ser atrativo e acolhedor também para os adultos que estão com as crianças. É muito importante saber como os adultos se sentem naquele espaço, se vão poder chegar, sentar, encontrar outros adultos na mesma situação que eles, no mesmo período, se podem trocar, conhecer outras pessoas.
Em relação ao espaço de brincar, o parquinho, preferencialmente tem que estar num local naturalizado ou minimamente não padronizado, o mais diverso possível, para que a criança possa criar narrativas e brincar de formas diversas, e não todo dia da mesma forma. Atualmente vemos parquinhos padrão, todos iguais, independentemente do lugar do Brasil você encontra em geral sempre os mesmos elementos.
Para que um espaço público seja acolhedor para as infâncias, precisa ser confortável tanto para as crianças quanto para os adultos em volta. Precisa ser seguro termicamente e em contato com a natureza, ter um banco para que os cuidadores possam sentar, um ponto de água para hidratação e para lavar uma mão suja ou um machucado, sombra para que as crianças possam brincar por mais tempo. Nas cidades mais quentes, é preciso ter uma estrutura para que as crianças possam brincar em diferentes horários do dia, para que os pais possam sentar na sombra, e que seja acessível por diferentes modais de transporte. De preferência acessível a pé ou de bicicleta, em espaço próximo às moradias. Grandes parques e grandes equipamentos públicos são ótimos, mas precisamos pensar também nos pequenos espaços, que as famílias possam acessar no seu cotidiano, no caminho da casa e da escola, sem grandes necessidades de deslocamento.
O que mais expulsa a criança do espaço público hoje: o carro, o medo ou a falta de estrutura?
Uma combinação de tudo isso. A presença do carro gera uma insegurança diária e falta de acessibilidade, porque fica mais difícil chegar aos lugares. As famílias querem deixar suas crianças com autonomia no espaço, e não sentir medo que elas corram em direção à rua. Ao mesmo tempo, os espaços públicos estão sendo sucateados. Muitos parquinhos, os espaços de brincar brasileiros, não têm manutenção regular. É fundamental que estejam sempre limpos, que a iluminação pública esteja funcionando, que tenham lixeiras, com os bancos e equipamentos em bom estado e não deteriorados. Os brinquedos também tem que estar em bom estado, para que os adultos tenham a segurança de levar suas crianças e a certeza de que elas não vão se machucar por conta de um brinquedo quebrado. É natural uma criança se machucar, ralar o joelho, mas porque está explorando o seu corpo e não porque o espaço ou o equipamento estão com má manutenção.
O que diferencia uma praça “bonita” de uma praça realmente pensada para as crianças?
“Bonita” é subjetivo. Quanto mais bonita, mais atrativa para as famílias. As pessoas gostam de estar num lugar visualmente agradável, arborizado, com flores, pintado, colorido, com materiais de qualidade. Isso faz com que as pessoas queiram ir para o lugar. Uma praça pensada pelas crianças é uma praça bonita. Ela não só tem os equipamentos e a manutenção necessária, mas oferece comodidade para as famílias, tem calçadas que levam até aquele lugar.
É possível falar em uma cidade segura para crianças sem reduzir a velocidade dos carros?
É importante que os espaços onde as crianças circulam tenham segurança viária, que sejam pensados para que as famílias andem com segurança, e a velocidade dos carros é um dos grandes fatores de perigo. A gente sabe que quanto mais alta é a velocidade, aumenta exponencialmente a possibilidade de fatalidades em um sinistro de trânsito. Idealmente, em áreas calmas, áreas escolares, é preciso estabelecer uma velocidade de 30 km/h a 40 km/h no máximo. É o ideal para que essas áreas sejam seguras para crianças.
O conceito de “ruas de brincar” ainda é visto como uma utopia no Brasil? Por quê?
A Rede Urban95 produziu um guia de “Ruas de Brincar”, entendidas como uma ativação do espaço público, e isso não é uma utopia. De fato, acontece em muitas cidades do Brasil. É um conceito de fechar as ruas em determinados períodos, em geral nos finais de semana, para que sejam ocupadas pelas crianças e pelas famílias com o objetivo de brincar. É um espaço livre de circulação de veículos, portanto, um lugar seguro que em geral é feito pela própria comunidade ou ativado pelo poder público, com oferta de atividades para crianças. Nesse espaço é possível levar uma bola, montar uma rede de algum esporte, fazer uma contação de história, disponibilizar acervo de livros para que as crianças possam ler, ou simplesmente um espaço para andar de bicicleta. Chamamos de ruas de brincar, mas em algumas cidades pode ser chamada de ruas de lazer. Enfim, é um conceito que está em prática e funciona em muitas cidades brasileiras. Não é uma utopia.
O importante é que o poder público e suas equipes sejam sensibilizados para a presença das crianças na cidade e o impacto que o espaço urbano tem no desenvolvimento infantil. Que o poder público comece a olhar para isso, forme as suas equipes para que os projetos comecem a considerar as crianças no planejamento urbano e no desenho das políticas. Atualmente muitas cidades não veem as crianças como usuárias dos serviços, elas não são consideradas quando os espaços são planejados, e às vezes intervenções muito simples fazem a diferença: é uma calçada mais ampla, é a presença de um banco com encosto para uma mãe lactante na sombra, é a presença de lixeiras para deixar aquele lugar mais limpo, é pensar travessias seguras e acessibilidade no sentido mais amplo da palavra.
Precisamos pensar a presença da natureza e a resiliência urbana como algo urgente, porque as cidades estão cada vez mais quentes e com inundações, e os espaços precisam responder a esses eventos climáticos. A criança é um usuário da cidade, ela tem direito a usar a cidade e precisa ser considerada quando as propostas são feitas. O primeiro passo é formar equipes para introduzir e mudar a perspectiva do planejamento do poder público como um todo, e então estruturar as políticas públicas tendo a primeira infância como uma política transversal.



















































