Entre os dias 4 e 5 de maio, foi realizado no Auditório Nereu Ramos, no Congresso Nacional, em Brasília, o Seminário Internacional Promundo “Ressignificando Masculinidades e Paternidades”. O evento reuniu especialistas, autoridades e representantes de organizações da sociedade civil para compartilhar ações e estratégias para um mundo sem violência de gênero, projetando novos horizontes para as agendas de cuidado e primeira infância.
Parceiro do Instituto Promundo em projetos realizados na Rocinha, o CECIP foi representado pela gerente de projetos, Gianne Neves, e pela coordenadora da secretaria executiva da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI), Soraia Melo.
O seminário contou com as seguintes mesas de debate: Mesa 1: Fortalecimento Institucional e Desafios da Sociedade Civil; Mesa 2: Pesquisa, Avaliação e Monitoramento de Impacto Social; Mesa 3: Programas e Metodologias nos Diferentes Ciclos de Vida, desde a Primeira Infância; Mesa 4: Políticas Públicas, Marcos Legais e Pautas Legislativas; e Mesa 5: Perspectivas Futuras e Lançamento do Relatório de Paternidades 2026.
A abertura foi conduzida pelo diretor-executivo e fundador do Instituto Promundo, Miguel Fontes, que destacou o papel estratégico da sociedade civil na incidência política e na construção de respostas coletivas à violência de gênero. Ele lembrou que a desigualdade de gênero no Brasil é estrutural, e por isso enfrentar seus efeitos exige mudar um “ecossistema”, com integração entre diferentes atores, redes e estratégias sustentadas ao longo do tempo.
Em seguida, as convidadas e convidados abordaram obstáculos no fazer diário das organizações, como a falta de sustentabilidade técnica e financeira. Pilar Lacerda, secretária nacional de Direitos da Criança e do Adolescente do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, destacou a desigualdade de gênero como um entrave não só para discussões mais aprofundadas nas organizações, mas para a sociedade como um todo. Ela citou a sobrecarga do trabalho de cuidado, notando que mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais a essas tarefas em comparação aos homens, fator que impacta diretamente a convivência familiar e a primeira infância.
A urgência do enfrentamento à violência de gênero pautou a maior parte das discussões, com dados reforçando a situação alarmante do Brasil: um feminicídio é registrado a cada cinco horas. Para Solene Hamú, oficial de projetos da Unesco, o papel das organizações que atuam nos territórios é decisivo para alterar essas estatísticas: “Nenhuma transformação acontece sozinha. São as organizações na ponta que transformam dados em ação e pressionam por mudanças. O encontro de hoje não é só sobre reflexão, é sobre assumir responsabilidades. Um mundo sem violência de gênero precisa ser construído”.
Em relação à sustentabilidade, Luzia Torres Lafitte, do Instituto da Infância (Ifan), destacou a intersetorialidade como um desafio comum a muitas organizações, que não conseguem mantê-la no longo prazo. A coordenadora da Secretaria Executiva da RNPI, Soraia Melo, enfatizou a importância das redes na garantia de direitos. Relembrou marcos importantes conquistados graças à luta coletiva, com trabalhos em rede, como o Marco Legal da Primeira Infância, que completou 10 anos em 2026, e o 26 de junho, dia da Lei Menino Bernardo, voltada para a prevenção de violências na educação de crianças e adolescentes, fruto da incidência política da Rede Não Bata, Eduque (RNBE).
Jovens e as masculinidades na Rocinha
No segundo dia de evento, o foco voltou-se para metodologias de sensibilização e a ressignificação das masculinidades. Especialistas e parceiros do Promundo apresentaram as especificidades dos programas executados Brasil afora. O intuito é promover atitudes equitativas de gênero, saúde e prevenção à violência entre jovens e homens adultos, por meio de oficinas, campanhas e avaliação de impacto. Os participantes discutem temas como diversidade sexual e enfrentamento da homofobia.
O debate convergiu para a necessidade de reconhecer as populações locais como sujeitos de transformação, investindo em ações que respeitem as pessoas e as particularidades de cada território. Convidada da Mesa 3, “Programas e Metodologias nos Diferentes Ciclos de Vida, desde a Primeira Infância”, Gianne Neves, gerente de projetos do CECIP, apresentou a missão da instituição e projetos atuais em parceria com o Promundo. Ela explicou que o CECIP nasceu no período de abertura política do Brasil no pós-ditadura, assinalando que o fortalecimento da democracia está na missão institucional, das atuações locais às globais: “O CECIP não nasceu na favela, e isso nos traz a responsabilidade de construir parcerias sólidas. Nosso papel é fortalecer o que já existe nos territórios”. Em seguida, exibiu um vídeo produzido pelos Jovens Repórteres da Rocinha, projeto que acontece em parceria com o Promundo e mobiliza estudantes de ensino médio do CIEP Ayrton Senna para produzirem suas próprias narrativas por meio da linguagem audiovisual e dos videocasts.
A iniciativa deriva de projetos como o Rocinha pela Vida, que surgiu via edital da Fiocruz no contexto do Plano Integrado de Saúde nas Favelas. No pós-pandemia, as ações ganham novos ares, passando a considerar a saúde integral e integrada, trabalhando também com educomunicação e juventudes. Gianne ressaltou que a parceria com o Promundo a partir de 2025 agregou a discussão urgente sobre paternidades ativas, masculinidades e suas relações com a primeira infância e as questões étnico-raciais.
Além de debater o papel da sociedade civil diante dos desafios contemporâneos, considerando sua atuação na promoção de direitos, na articulação institucional e na construção de respostas coletivas, o Seminário foi uma oportunidade de aprofundar discussões sobre pesquisa e avaliação como dimensões fundamentais para qualificar práticas, fortalecer organizações e orientar estratégias de atuação.
Ao longo da programação, especialistas, parceiros e profissionais tiveram momentos de troca e construção conjunta para pensar como Estado e sociedade podem se articular cada vez mais e melhor para consolidar políticas públicas eficazes, com homens participando cada vez mais de espaços de cuidado e ressignificando suas masculinidades, o que impacta na redução da violência de gênero e ajuda o país a avançar na meta de erradicar o feminicídio.























































