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Paulo Freire e seu legado para o CECIP e o Mundo

A emoção de conseguir ler pela primeira vez é marcante. Natural na vida de uma criança, a alfabetização, que é direito de todo ser humano, até hoje não faz parte da realidade de muitos brasileiros. Imagine então quem, a duras penas, consegue ler em idade madura que glória não deve ser quando se percebe capaz de juntar as letrinhas, formar as sílabas e conseguir fazer uma leitura com propriedade. Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire ajudou, na década de 1960, milhares de brasileiros e brasileiras a conseguirem esse trunfo em Angicos (RN). Essa experiência pioneira com trabalhadores rurais comprovou que o ato de aprender a ler supera o mero domínio do código escrito: trata-se de um processo profundo de conscientização e cidadania, onde a palavra reflete a própria leitura do mundo.

Esse legado humanista e transformador está na raiz do próprio CECIP Centro de Criação de Imagem Popular, organização da qual Paulo Freire foi um dos fundadores, em 1986. Nascido no Recife em 19 de setembro de 1921, data em que o país e o mundo celebram sua memória, o educador deixou como herança a convicção de que a comunicação e a educação caminham juntas para fortalecer a democracia e dar voz aos sujeitos historicamente marginalizados. A práxis freiriana, o pensamento crítico e a autonomia permeiam cada projeto pedagógico, produção audiovisual e ação comunitária promovida pelo CECIP ao longo de suas quase quatro décadas de atuação.

O alcance global de suas ideias é dimensionado com precisão no artigo “Educação tem nome próprio”, assinado pelo sociólogo e jornalista Muniz Sodré e publicado pela Folha de São Paulo no último sábado, 19 de setembro. No texto, Sodré destaca que, se existisse um Prêmio Nobel da Educação, Paulo Freire seria o candidato incontestável para honrar o Brasil. Considerado um dos três intelectuais mais citados nas ciências humanas em todo o planeta, Freire ostenta 48 títulos de doutor honoris causa por instituições do prestígio de Harvard, Oxford e Cambridge, além de figurar na França entre os doze maiores educadores da história da humanidade. Trata-se de um pensamento de amplitude universal, estruturado na premissa de que a educação é, essencialmente, uma prática libertária.

Apesar de seu prestígio internacional, a trajetória do educador foi marcada por perseguições de setores conservadores que recusaram sua pedagogia emancipatória. Durante a ditadura militar, Freire foi preso e forçado ao exílio sob acusações infundadas que o rotulavam como “comunista”, ignorando sua profunda formação cristã e compromisso ético com a justiça social. Como assinala Muniz Sodré, a hostilidade persistiu ao longo das décadas em narrativas de extrema-direita que tentaram transformá-lo em alvo de “guerra cultural”. Contudo, a força do seu pensamento resistiu e resiste justamente porque não pertence a projetos de dominação, mas sim ao Brasil que constrói a cidadania no cotidiano da vida social e das lutas populares.

A atualidade de Paulo Freire se renova continuamente nas ações do CECIP e na organização dos movimentos sociais contemporâneos. A partir da década de 1990, os movimentos do campo integraram a educação no centro de suas reivindicações, encontrando no arcabouço teórico freiriano o suporte utópico e político para erguer projetos pedagógicos populares. Para o CECIP, reafirmar o legado de seu fundador no dia de seu nascimento é renovar o compromisso com uma educação participativa e inclusiva. Celebrar Paulo Freire é defender que o conhecimento deve ser sempre uma ferramenta coletiva de libertação, esperança e transformação social para o Brasil e para o mundo.

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