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Paternidades e infância: cuidar também é papel dos homens

No mês em que se celebra o Dia dos Pais, falar de paternidade é também falar de infância, cuidado e direitos. Durante muito tempo, o cuidado com as crianças foi associado quase exclusivamente às mulheres. Aos homens, caberia o papel de provedor, enquanto tarefas como alimentar, brincar, acompanhar a vida escolar, levar ao médico e participar da rotina dos filhos eram vistas como responsabilidades maternas.

Para garantirmos o desenvolvimento integral das crianças, essa lógica deve ser superada, o que envolve transformar as relações entre homens e mulheres. A responsabilidade pelo cuidado das crianças é de todos: familiares, comunidades e Estado.

Paternidade ativa e cuidadora significa participar da vida cotidiana da criança, construir vínculos, oferecer segurança e afeto e compartilhar responsabilidades. A participação dos homens no cuidado também é um direito: o direito de exercer a paternidade de maneira plena, afetiva e responsável, sem que modelos rígidos de masculinidade determinem o que podem ou não fazer.

Essa perspectiva está no centro do trabalho do Instituto Promundo, organização parceira do CECIP em iniciativas voltadas às masculinidades, paternidades, equidade de gênero, justiça racial e prevenção das violências. O Promundo atua na ressignificação das masculinidades e na promoção do envolvimento dos homens no cuidado e na paternidade, questionando normas sociais que sustentam desigualdades e violências. Entre suas iniciativas está o Programa P – Paternidade e Cuidado, que busca ampliar o envolvimento dos homens desde a gestação até a primeira infância, fortalecendo a corresponsabilidade e a igualdade de gênero. 

A parceria entre CECIP e Promundo alcança ainda o público jovem, por meio do projeto Jovens Repórteres da Rocinha. Desde 2025, os estudantes participantes investigam as relações entre masculinidades, machismo, cuidado e paternidades, contando com o apoio de especialistas do Promundo. O aprendizado se faz por meio da produção de conteúdo audiovisual, aproximando os jovens da Rocinha de temas delicados, muitas vezes restritos ao âmbito familiar. 

Paternidades e primeira infância

Essa discussão tem uma história no CECIP. Quando integrava a Rede Nacional Primeira Infância (RNPI) e exercia a Secretaria Executiva no triênio 2015–2017, o CECIP participou da construção da agenda nacional sobre homens, paternidade e cuidado. A atuação deu origem à articulação do Grupo de Trabalho Homens pela Primeira Infância e à realização do I Seminário Nacional Paternidade e Primeira Infância, em agosto de 2015, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu especialistas e organizações para discutir temas como licença-paternidade, participação dos homens no cuidado, prevenção das violências contra crianças, saúde e diferentes dimensões da paternidade.

O resultado desse processo foi sistematizado em uma publicação com reflexões, debates e recomendações para gestores públicos. O II Seminário Nacional, realizado posteriormente, ampliou a discussão para as políticas públicas de atenção e proteção à primeira infância, as diferentes configurações familiares, as licenças-maternidade e paternidade e a relação entre paternidade e equidade de gênero. 

As publicações resultantes desses seminários fazem parte dessa memória de mobilização pela participação dos homens na vida das crianças. As capas das publicações foram desenhadas por Claudius Ceccon, fundador e diretor do CECIP, aproximando também arte, comunicação e defesa dos direitos da primeira infância.

A experiência foi construída em um momento importante da história da RNPI e contribuiu para fortalecer uma visão de primeira infância que reconhece o cuidado como responsabilidade compartilhada.

A discussão permanece atual

Hoje, falar de paternidade significa também reconhecer que não existe um único modelo de família ou uma única maneira de exercer o papel de pai. Há pais heterossexuais, homossexuais, trans, adotivos e tantas outras configurações familiares.

Tios, avôs e outras pessoas que assumem responsabilidades de cuidado também ocupam lugares fundamentais na vida das crianças. O que define uma paternidade comprometida não é um modelo familiar, mas a presença, o vínculo, o afeto e a responsabilidade.

Para as crianças, ter adultos disponíveis para cuidar, proteger, brincar, escutar e acompanhar seu desenvolvimento é essencial. Já para os homens, participar desse processo também pode significar romper com expectativas que historicamente os afastaram do cuidado e dos vínculos afetivos.

Por isso, no mês dos pais, celebrar a paternidade é mais do que homenagear figuras paternas. É lembrar que cuidar é uma responsabilidade coletiva e que toda criança tem direito a relações baseadas em proteção, afeto, segurança e respeito. E afirmar que os homens também têm direito a viver plenamente a experiência do cuidado.

Construir paternidades mais presentes, diversas e cuidadoras é uma agenda de direitos das crianças, dos homens e de toda a sociedade.

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