A vida do jornalista Zuenir Ventura, falecido ontem, aos 95 anos, foi lembrada e homenageada por diferentes meios de comunicação do Brasil. Seus personagens e enredos foram lembrados e são eternos para a nossa literatura.
Com faro apurado para boas histórias, Zuenir foi em busca delas numa das exibições da TV Maxambomba, projeto pioneiro do CECIP, em 1985. A experiência, que poderia ter sido apenas uma visita de um escritor reconhecido a um projeto de comunicação popular, acabou rendendo uma pequena história sobre jornalismo, território e acaso.
Naquele período, Claudius tentava conseguir uma nota sobre o CECIP e a TV Maxambomba no Informe JB, do Jornal do Brasil. Depois de algumas tentativas frustradas, recorreu a Zuenir para que intermediasse o contato com o jornal.
Zuenir, segundo o relato de Claudius, quis saber primeiro do que se tratava aquela tal Maxambomba.
A resposta foi suficiente para despertar sua curiosidade.“Quando é a próxima exibição? Posso ir ver?”, perguntou. Não haveria recepção especial, avisou Claudius: ele assistiria simplesmente à sessão que estivesse programada.
No dia seguinte, Claudius tratou de recomendar à equipe o maior capricho possível.
Afinal, Zuenir era o homem do Caderno B do Jornal do Brasil, um dos espaços mais lidos da imprensa carioca, e já era uma referência do jornalismo brasileiro.
Em 1985, ele havia sido convidado para reformular o caderno de cultura do JB, consolidando uma atuação que faria dele uma figura central do jornalismo cultural do Rio.
Só havia um problema: a realidade não parecia disposta a colaborar com o cerimonial. Ao chegar ao local, Claudius percebeu que a praça era, na verdade, um terreno baldio, sem qualquer encanto.Para completar, a kombi da Maxambomba, carregada com o equipamento, havia quebrado.
O veículo alugado era menor e a equipe tentava montar tudo em uma estrutura precária. Faltava pouco para começar e praticamente ninguém havia chegado.
Claudius lembra que chegou a rezar por uma chuva que interrompesse a sessão e lhe poupasse o constrangimento.
Zuenir, porém, não parecia precisar de cenário. Claudius tentou direcioná-lo para conversar com as “pessoas certas”. Não adiantou.O jornalista saiu pela praça falando com crianças, moradores, idosos e adolescentes.
Então aconteceu aquilo que, em projetos comunitários, às vezes parece milagre: as pessoas começaram a chegar.
Vieram trazendo bancos e cadeiras de plástico, até que, na hora da exibição, o espaço estava lotado. A sessão foi acompanhada pelos gritos e aplausos característicos da Maxambomba, e, ao final, muita gente quis participar da Câmera Aberta.


Dois dias depois, o Caderno B estampava a reportagem na capa. A descrição que Zuenir fez da TV Maxambomba, lembra Claudius, foi extremamente generosa. Foi bem melhor do que uma notinha no Informe JB.
A lembrança diz muito sobre Zuenir: diante de uma experiência que poderia ter sido julgada pela precariedade, ele parece ter preferido olhar para o que acontecia quando a comunidade se reunia para se ver na tela e falar sobre si.
Era justamente essa a força da TV Maxambomba, dedicada à comunicação popular na Baixada Fluminense, que se tornou uma experiência pioneira de produção e exibição audiovisual em espaços públicos.
Décadas depois, a memória daquela noite permanece entre as histórias que ajudam a contar o CECIP. E há algo de particularmente bonito nela: Zuenir foi à procura de uma história e acabou entrando nela.
















































