O conceito freireano de “inédito viável” está sempre inspirando as discussões e os projetos do CECIP. Mas é coisa rara vê-lo materializando-se diante dos olhos do Brasil e do mundo, sob os nossos pés.
A mobilização popular no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi histórica e inédita. Compareceram às urnas mais de 3 milhões de pessoas que não haviam votado no primeiro turno. A abstenção (19,2%) foi a menor em 20 anos, e os votos inválidos (brancos e nulos) somaram o menor percentual do século (3,24%). Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 64.256.232 votos, tornando-se o primeiro presidente do Brasil a ser escolhido quatro vezes pelo voto direto.
Espalharam-se pelas redes sociais as cenas de multidões se deslocando para votar no candidato do PT em todo o país, e de idosos quase centenários sendo ajudados a chegar às urnas em seus andadores, cadeiras de rodas e até carregados no colo. Caronas solidárias foram organizadas espontaneamente em todas as cidades, possibilitando a desconhecidos auxiliarem uns aos outros no esforço de concretizar o direito ao voto – muitas vezes em reação ao boicote criminoso do transporte público gratuito por parte de empresários de ônibus e vans, inclusive em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
O dia da votação foi o ápice de um movimento que cresceu ao longo das três semanas que separaram os dois turnos de votação – levando milhões de pessoas às ruas de cidades pequenas, médias e grandes em passeatas, manifestações e atos a favor de Lula, em uma dimensão nunca vista desde a redemocratização do país. Simultaneamente e de forma complementar, as redes digitais foram tomadas por uma onda de conteúdos autorais em defesa da democracia e contra ameaças de retrocesso, resultando em uma inversão da hegemonia da extrema-direita nessas plataformas. A liderança digital do progressismo foi ainda mais notável por superar tentativas criminosas de bloqueio e censura por parte da Meta, corporação detentora das plataformas Facebook, Instagram e WhatsApp. O canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones, reuniu mais de 10 milhões de pessoas e foi um impulsionador desse movimento cívico.
Horizontes para avançar

O crescimento da mobilização popular em defesa da democracia nas ruas e nas redes digitais teve a juventude como um de seus protagonistas, e pode indicar o início de uma renovação na forma de se fazer política no país, em contraposição a narrativas de desencanto e desengajamento que vinham reduzindo a participação cidadã nos últimos anos.
O próprio presidente eleito, em seu discurso após a confirmação da vitória, agradeceu a histórica mobilização estudantil pela virada e anunciou sua intenção de tornar o governo mais participativo. “Essa eleição me ensinou muitas lições. Posso dizer que vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais dessas decisões. E quero dizer a vocês que a comunicação digital vai ganhar espaço muito grande. Eu inclusive já ganhei um celular e podem ficar certos que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo diretamente todo dia”, afirmou Lula.
Abrem-se novos horizontes para o enfrentamento dos projetos autoritários e violentos de extrema-direita que se alastraram pelo mundo desde a popularização dos smartphones e das redes sociais. As eleições do Brasil mostram a todos os países que é possível voltar a mobilizar as massas e resgatar a ideia de democracia participativa – e não apenas no período eleitoral.
Para Madza Ednir, pedagoga (USP), especialista em Educomunicação e em Facilitação de Mudanças Educacionais e autora dos materiais “Cuidado Clima” (CECIP/Fiocruz), a rede que se formou pela democracia não pode ser desfeita: é hora de arregaçar as mangas e pensar coletivamente o que pode ser feito a partir de agora para ampliar e acelerar processos de educação libertadora formal, não formal e informal. “O que podemos fazer, mais do que já fazemos, para que as pessoas consigam – em tempos de colapso do clima e das democracias – ler o mundo com as lentes da Ciência, da Arte, da Poesia, da Espiritualidade e atuar nos territórios de forma colaborativa sem cair nas garras do fascismo, do medo e raiva do outro, da intolerância?”, questiona.
Noale Toja, doutora, professora (UERJ) e educomunicadora do projeto Jovens Repórteres da Rocinha (CECIP/Promundo), compartilha do entusiasmo e do senso de responsabilidade que as eleições trouxeram: “Foi uma demonstração do que somos capazes, todos, de todos os lados. E o segundo turno recupera nossa força de mobilização. Foi lindo. Está sendo lindo e precisamos entender como continuar. Um dia que nasceu feliz”.
Gerente de projetos do CECIP, a cientista social e professora Gianne Neves concorda que o desafio é transformar a mobilização vista nas eleições em participação social permanente. “A democracia se fortalece por meio do voto e também pela capacidade das pessoas de compreender criticamente a sua realidade, expressar suas opiniões e participar das decisões que afetam suas vidas. É nesse sentido que a atuação do CECIP pode contribuir. Por meio dos nossos projetos vamos continuar criando espaços de diálogo, valorizando a diversidade e os saberes dos territórios e fortalecendo a ação coletiva na construção de uma sociedade mais democrática e justa.”
Mutirão do CECIP

O CECIP buscou várias formas de contribuir para que as eleições de 2026 fossem participativas e para promover o voto consciente. Do rádio às redes sociais, passando pela articulação com organizações da sociedade civil, mobilizamos diferentes linguagens para aproximar democracia, direitos e vida cotidiana.
Uma das ações foi o “Minuto Democracia”, série de spots radiofônicos realizada em parceria com a Música Plugada Brasileira, emissora que transmite sua programação na frequência 107,5 FM. Com mensagens sobre voto consciente, desinformação, saúde pública, antirracismo, meio ambiente, igualdade de gênero e proteção das crianças, entre outras, a iniciativa levou temas de interesse público à programação diária da rádio. A série produziu 14 episódios entre 1 e 2 minutos de duração, narrados por vozes de diferentes gerações e áreas de atuação. As mensagens convidam à reflexão sobre como as escolhas eleitorais determinam as políticas públicas e respondem aos direitos de cidadania.
Para Patrícia Lima, jornalista e idealizadora da Música Plugada Brasileira, a rádio ocupa um lugar de memória nesse processo. “Ter a rádio como testemunha desse momento é reconhecer a importância da comunicação para a democracia. O ‘Minuto Democracia’ mostrou como o rádio pode abrir espaço para diferentes vozes, histórias e reflexões sobre o país que queremos construir”.

Uma iniciativa de articulação da sociedade civil no período eleitoral foi convocada pela Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong). Junto a cerca de vinte outras instituições, o CECIP participou do “Ocupa Abong”, fórum de discussões e trocas de experiências sobre iniciativas de mobilização cidadã e de fortalecimento do debate público em torno da democracia, direitos sociais, diversidade e meio ambiente.

A sede do CECIP também foi espaço de encontro e construção coletiva com a realização do Café CECIP, uma reunião dedicada à troca de ideias sobre engajamento político e estratégias de comunicação. O encontro promoveu reflexões sobre como ampliar o diálogo com a sociedade, mobilizar diferentes públicos e fortalecer a circulação de mensagens capazes de transformar ideias em ações, aproximando a comunicação das práticas cotidianas de participação cidadã.
Ilustrações originais de Claudius Ceccon, diretor-executivo do CECIP, fizeram-se presentes em várias mobilizações na rua e circularam nas redes. Com a linguagem direta e crítica característica de sua trajetória, os desenhos abordaram o papel do voto na democracia, aproximando a tradição do cartum político das conversas que atravessaram o período eleitoral. O arquiteto e cartunista integrou a equipe do jornal O Pasquim, na década de 1970, e foi detido pelo regime ditatorial. Sua trajetória atravessa períodos de censura e resistência, em que a liberdade de expressão esteve no centro das disputas políticas brasileiras. A criação do CECIP, em 1986, é fruto dos anseios daquele contexto: popularizar o acesso à comunicação era uma necessidade estratégica para reconstruir a democracia após 20 anos de regime autoritário.
Quarenta anos depois, Claudius percebe o ineditismo do que estamos vivendo: “Agora entendemos que a mobilização popular é uma força renovadora que pode mudar o que antes parecia um destino inevitável. Essa mobilização será necessária muitas vezes, na defesa de causas que pareciam perdidas. Ela vigiará um Congresso cuja maioria circunstancial não representa o povo brasileiro”.





Infância e adolescência como prioridade
A defesa dos direitos de crianças e adolescentes também pautou o debate eleitoral. A Agenda 227, movimento apartidário que reúne mais de 520 organizações da sociedade civil, apresentou propostas para as candidaturas à Presidência da República e aos governos estaduais, nas áreas de educação, saúde, primeira infância, enfrentamento das violências e profissionalização. A iniciativa também promoveu diálogos com candidaturas, partidos e equipes políticas para incluir a garantia dos direitos de crianças e adolescentes nos planos de governo. As propostas se fundamentam no artigo 227 da Constituição Federal, que estabelece a prioridade absoluta desses direitos e atribui sua garantia à família, à sociedade e ao Estado.
O CECIP participou dessa articulação, contribuiu para o processo de escuta das crianças e adolescentes, abordou o tema em três episódios da série “Minuto Democracia” e produziu um artigo especial sobre participação infantil para a revista Casa Comum.
Nossa equipe se orgulha de ter feito parte deste momento histórico. Seguiremos articulando educação, comunicação e participação social para fortalecer a democracia e ampliar a capacidade da sociedade de intervir nas decisões que afetam a vida coletiva.
O desafio continua enorme, mas a energia transformadora da mobilização popular nunca esteve tão acesa: cabe-nos o compromisso coletivo de avançar rumo a outros inéditos viáveis.
















































